Sustento feminino - MARTHA MEDEIROS
(ZERO HORA 29/07)
Participando de um seminário sobre comportamento, foi dito que as
mulheres estão de tal forma cansadas de suas múltiplas tarefas e do esforço
para manter a independência que começam a ratear: andam sonhando de novo
com um provedor, um homem que as sustente financeiramente.
Não acreditei. Outro dia discuti com uma amiga porque duvidei quando ela
disse estar percebendo a mesma coisa, que as mulheres estão selecionando
seus parceiros pelo poder aquisitivo não só as maduras e pragmáticas, mas
também as adolescentes, que ainda deveriam cultivar algum romantismo.
Então é verdade? Pois me parece um retrocesso.
A independência nos torna disponíveis para viver a vida da forma que sonhamos,
sem ter que “negociar” nossa felicidade com ninguém, e são poucos os casos em
que se pode ser independente sem ter a própria fonte de renda (que não precisa
obrigatoriamente ser igual ou superior a do marido). Não é nenhum pecado o
homem pagar uma viagem, dar presentes, segurar as pontas em despesas maiores,
caso ele ganhe mais – é distribuição de renda.
Mas se é ela que ganha mais, a madame também pode assumir o posto
de provedora sênior, até que as coisas se equalizem.
Parceria é uma relação bilateral.
É importante que ambos sejam autossuficientes para que não haja distorções
sobre o que significa “amor” com aspas e amor sem aspas.
As mulheres precisam muito dos homens, mas por razões mais profundas.
Estamos realmente com sobrecarga de funções – pressão auto-imposta,
diga-se –, o que faz com que percamos nossa conexão com a feminilidade:
para ser mulher não basta usar saia e pintar as unhas, essa é a parte fácil.
A questão é ancestral: temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso,
de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade,
nosso mistério.
O homem nos confirma como mulher, e nós a eles.
Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos
generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assustados com essa
senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais.
Podemos ser independentes e ternas, independentes e fêmeas –
não há contradição. Estamos mais solitárias porque queremos ter a última
palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa que não delega,
não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber.
Garotas, não desistam da sua independência.
Façam o que estiver ao seu alcance, seja através do trabalho ou do estudo,
em busca de realização e amor próprio.
Escolher parceiros pelo saldo bancário é triste e antigo, os tempos são outros.
É plausível que se procure alguém com o mesmo nível intelectual e social,
com um projeto de vida parecido e com potencial de crescimento – mas para
crescerem juntos, não para garantir um tutor.
A solidão, como contingência da vida, não é trágica, podemos dar conta de
nós mesmas. Mas, ainda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir
amada é que nos sustenta de fato.
Participando de um seminário sobre comportamento, foi dito que as
mulheres estão de tal forma cansadas de suas múltiplas tarefas e do esforço
para manter a independência que começam a ratear: andam sonhando de novo
com um provedor, um homem que as sustente financeiramente.
Não acreditei. Outro dia discuti com uma amiga porque duvidei quando ela
disse estar percebendo a mesma coisa, que as mulheres estão selecionando
seus parceiros pelo poder aquisitivo não só as maduras e pragmáticas, mas
também as adolescentes, que ainda deveriam cultivar algum romantismo.
Então é verdade? Pois me parece um retrocesso.
A independência nos torna disponíveis para viver a vida da forma que sonhamos,
sem ter que “negociar” nossa felicidade com ninguém, e são poucos os casos em
que se pode ser independente sem ter a própria fonte de renda (que não precisa
obrigatoriamente ser igual ou superior a do marido). Não é nenhum pecado o
homem pagar uma viagem, dar presentes, segurar as pontas em despesas maiores,
caso ele ganhe mais – é distribuição de renda.
Mas se é ela que ganha mais, a madame também pode assumir o posto
de provedora sênior, até que as coisas se equalizem.
Parceria é uma relação bilateral.
É importante que ambos sejam autossuficientes para que não haja distorções
sobre o que significa “amor” com aspas e amor sem aspas.
As mulheres precisam muito dos homens, mas por razões mais profundas.
Estamos realmente com sobrecarga de funções – pressão auto-imposta,
diga-se –, o que faz com que percamos nossa conexão com a feminilidade:
para ser mulher não basta usar saia e pintar as unhas, essa é a parte fácil.
A questão é ancestral: temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso,
de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade,
nosso mistério.
O homem nos confirma como mulher, e nós a eles.
Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos
generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assustados com essa
senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais.
Podemos ser independentes e ternas, independentes e fêmeas –
não há contradição. Estamos mais solitárias porque queremos ter a última
palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa que não delega,
não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber.
Garotas, não desistam da sua independência.
Façam o que estiver ao seu alcance, seja através do trabalho ou do estudo,
em busca de realização e amor próprio.
Escolher parceiros pelo saldo bancário é triste e antigo, os tempos são outros.
É plausível que se procure alguém com o mesmo nível intelectual e social,
com um projeto de vida parecido e com potencial de crescimento – mas para
crescerem juntos, não para garantir um tutor.
A solidão, como contingência da vida, não é trágica, podemos dar conta de
nós mesmas. Mas, ainda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir
amada é que nos sustenta de fato.
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