sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Do livro - A GRAÇA DA COISA

Sustento feminino - MARTHA MEDEIROS

(ZERO HORA 29/07)


Participando de um seminário sobre comportamento, foi dito que as 

mulheres estão de tal forma cansadas de suas múltiplas tarefas e do esforço 
para manter a independência que começam a ratear: andam sonhando de novo 
com um provedor, um homem que as sustente financeiramente.

Não acreditei. Outro dia discuti com uma amiga porque duvidei quando ela 

disse estar percebendo a mesma coisa, que as mulheres estão selecionando 
seus parceiros pelo poder aquisitivo não só as maduras e pragmáticas, mas 
também as adolescentes, que ainda deveriam cultivar algum romantismo.

Então é verdade? Pois me parece um retrocesso. 

A independência nos torna disponíveis para viver a vida da forma que sonhamos, 
sem ter que “negociar” nossa felicidade com ninguém, e são poucos os casos em 
que se pode ser independente sem ter a própria fonte de renda (que não precisa 
obrigatoriamente ser igual ou superior a do marido). Não é nenhum pecado o 
homem pagar uma viagem, dar presentes, segurar as pontas em despesas maiores, 
caso ele ganhe mais – é distribuição de renda.

Mas se é ela que ganha mais, a madame também pode assumir o posto 

de provedora sênior, até que as coisas se equalizem. 
Parceria é uma relação bilateral. 
É importante que ambos sejam autossuficientes para que não haja distorções 
sobre o que significa “amor” com aspas e amor sem aspas.

As mulheres precisam muito dos homens, mas por razões mais profundas. 

Estamos realmente com sobrecarga de funções – pressão auto-imposta, 
diga-se –, o que faz com que percamos nossa conexão com a feminilidade: 
para ser mulher não basta usar saia e pintar as unhas, essa é a parte fácil.

A questão é ancestral: temos, sim, necessidade de um olhar protetor e amoroso, 

de um parceiro que nos deseje por nossa delicadeza, nossa sensualidade, 
nosso mistério. 
O homem nos confirma como mulher, e nós a eles.
 Essa é a verdadeira troca, que está difícil de acontecer porque viramos 
generais da banda sem direito a vacilações, e eles, assustados com essa 
senhora que fala grosso, acabam por se infantilizar ainda mais.

Podemos ser independentes e ternas, independentes e fêmeas – 

não há contradição. Estamos mais solitárias porque queremos ter a última 
palavra em tudo, ser nota 10 em tudo, a superpoderosa que não delega, 
não ouve ninguém e que está ficando biruta sem perceber.

Garotas, não desistam da sua independência. 

Façam o que estiver ao seu alcance, seja através do trabalho ou do estudo, 
em busca de realização e amor próprio. 
Escolher parceiros pelo saldo bancário é triste e antigo, os tempos são outros. 
É plausível que se procure alguém com o mesmo nível intelectual e social, 
com um projeto de vida parecido e com potencial de crescimento – mas para 
crescerem juntos, não para garantir um tutor.

A solidão, como contingência da vida, não é trágica, podemos dar conta de 

nós mesmas. Mas, ainda que eu pareça obsoleta, ainda acredito que se sentir 
amada é que nos sustenta de fato.

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